22 Mar

Me Deixa Te Contar Uma História

 

Eu estava em uma trilha, a caminho da van que me levaria de volta a Cusco; estava deixando para trás a cidade de Aguas Calientes e as ruinas de Machu Picchu. A trilha percorria cerca de três quilômetros em meio à mata, o caminho era guiado por um trilho de trem, que em certos momentos passava por nós, com sua buzina nos fazendo correr para as laterais do caminho.

 

 

Na noite anterior tinha dormido apenas quatro horas, para que antes do sol nascer já estivesse a postos, subindo os mil e novecentos degraus que me levaria à cidade dos Incas, que mais tarde me deixaria impressionada. Pela mesma escada que subi, eu desci com as pernas já tremendo; meu corpo estava exausto, e já estava sentindo todos meus músculos arderem.

 

Enquanto fazia meu caminho de volta já estava no meu limite, se parasse de andar por um segundo minhas pernas cediam. E neste momento um passo em falso me fez ir de encontro ao chão de pedra, quando levantei sentia o sangue escorrer, mas decidi não olhar, porque parar de andar não era uma opção.

 

 

Estava exausta, machucada e sangrando; meu corpo gritava em protesto a cada comando de continuar fazendo esforço. Nesta hora, minha mente começou a trabalhar negativamente contra mim, aquele fantasminha falando coisas negativas começou a agir.

 

 

“Você é fraca, magra demais! Não vai aguentar.”

“Que ideia foi essa de sair com uma mochila pesada para outro país.”

“Desiste! Você está sozinha.”

 

 

E a cada pensamento desse era como uma facada no meu corpo já ofegante da caminhada, até que todo o sentimento começou a escorrer em forma de lagrimas, que embasavam o meu caminho. Teria sido esta uma má ideia mesmo? Seria eu, fraca demais pra conseguir seguir em frente?

Não! Não foi uma má ideia, e também não sou fraca! Já estava no meio da trilha, ainda tinha metade da viagem pela frente, tinha que contar comigo mesma. E foi ai que aprendi que é a nossa própria mente que controla absolutamente tudo! Não poderia desistir naquela altura, e já tinha passado por provações e vivencias incríveis, tinha que continuar a andar.

 

E então pensei em toda a arte que tinha acabado de presenciar naquela cidade, toda a construção incrível do povo Inca. Senti toda a natureza que estava em minha volta, e aquela energia começou a recarregar meu corpo, o fantasminha já tinha se calado, e agora minha mente se concentrava em sentir.

 

Senti a dor.

Senti a ardência dos musculo.

Senti o som da natureza.

Senti a energia da historia.

 

 

 

Não podia colocar fone de ouvido, porque tinha que ouvir também a buzina do trem; então coloquei musica no alto falante e fui andando no ritmo delas. Quando pessoas de outros países passavam por mim, cantavam junto a musica que tocava no momento; não estava sozinha, tinha um mundo inteiro de pessoas e experiências para viver. Estava feliz, como há um tempo já não acontecia, senti orgulho do que estava conseguindo fazer.

 

 

Foram 5 países, 13 estados e muitos quilômetros rodados. E escolhi contar esse pedacinho da historia para vocês, porque foi o momento em que me aceitei, e entendi meu corpo e o seu limite, controlei minha mente e me fiz mais forte. Existe uma Leticia antes e depois desse dia, e foi ele que me ajudou a encarar todos os outros desafios que vivi nesse mochilão, e com certeza me ajudará a continuar encarando todo o resto da vida.

 

Nesta viagem, passei dias comendo somente castanha e bebendo água com clorin (uma substancia que pingamos para deixa-la potável). Cheguei a passar 12 horas num mesmo lugar esperando um ônibus que me levaria até a próxima fronteira, passei também a noite acordada em um pronto socorro, sentada ao lado de moradores de rua e vários cachorros porque não tinha dinheiro para pagar a noite em um hostel.

 

 

Corri contra o tempo em países desconhecidos, resolvi problemas em uma língua que nunca tinha falado antes, aprendi a cambiar (trocar) o meu dinheiro, e também a negociar confiantemente o preço de tudo que precisava comprar. Não foi uma viagem de luxos e conforto, atingi todos os meus limites, e por fim cresci e transcendi.

Vocês podem ver esses vídeos que defino como “minutos de saudade”, dos lugares lindos por onde passei, nem tudo foi perrengue, mas também nem tudo foi fácil. Viajei com muito pouco dinheiro e sabia/queria provar que ele não é tão importante assim, e que na verdade precisamos de muito pouco para conseguir viver experiências incríveis.

Não deixem outras pessoas assustarem vocês, encarem a vida da melhor maneira e lembrem que é a nossa própria mente que controla nosso corpo. Viver na estrada é uma arte que aprendemos a dominar na pratica, assim como todas as outras, e se você tambémé artista, ou apreciador, quando conhecer outras culturas vai notar a diferença que faz no seu modo de interpretar toda a comunicação visual a sua volta.

 

Hoje vim de textão, e se você leu até aqui e ficou curioso para saber os detalhes de cada pais, contei sobre eles aquiE também tem todas as fotos que fiz durante a viagem. 

 


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